Vejo-me tentada a transformar o que deveria ser um relatório sobre a visita ao Museu Nacional de Brasília em um desabafo pessoal. Porém, faço-o creio eu, não só por mim, mas também por aqueles que igualam-se a mim Brasil a fora em tamanha ignorância e estranheza. Ignorância em relação à história do nosso país e estranheza em relação à arte, ambas expostas diante de nossos olhos na referida visita. De início surpreendeu-me ver contada e de certa forma construída a nossa história por estrangeiros; logo em seguida veio-me a sensação da pouca ou até mesmo da falta de informações sobre as nossas origens e por fim senti-me alegre em reconhecer que apesar de tantas angústias somos um povo que tem orgulho de ser brasileiro.
Vermos contada por outros a nossa própria história é de certa forma frustrante, no entanto, é bem verdade que foi de suma importância que muitos, ainda que não dos nossos, tenham tido interesse em documentar por meio de livros, mapas, gravuras, poemas, cartas, enfim, um tão vasto material que tornou possível ao longo do tempo ser conhecida as nossas origens. Ao cartógrafo Waldsmüller de 1525; ao Príncipe Maurício de Nassau- Holandes que trouxe com ele cientistas e artistas para documentar todas as novidades que o nordeste permitia descobrir, entre eles: Frans Post e Albert Eckhout – Quadros a óleo, estes que inspiraram outras obras; aos que após a abertura dos portos em 1808 (especialmente entre 1810 e 1820) – naturalistas que desenvolveram trabalhos baseados no estudo de nossa fauna e flora – entre eles os alemães Spiz e Martius; aos Debret e Rugendas, autores de álbuns de gravuras editadas em Paris (1834 e 1835), que revelaram imagens das paisagens e cotidianos brasileiros aos europeus; aos artistas viajantes ansiosos por retratarem nosso país, tanto das suas belezas, das suas riquezas naturais, quanto dos seus habitantes com os seus mais diversos e curiosos hábitos e costumes. Entre 1810 e 1850 o Rio de Janeiro, ora capital Imperial, foi uma das cidades mais retratadas do mundo.
Assim, com os seus olhos ávidos, apaixonados e nem sempre bem intencionados e sim movidos pelos mais diversos interesses por tudo o que aqui já estava e pelos que aqui já viviam; muitos vieram, trouxeram outros e também muitos ficaram por aqui. Portugueses, Holandeses, Africanos, Europeus, não só se puseram a contar as histórias mais também passaram a fazer parte dela; dessa mistura de povos, dos que chegaram e dos que já estavam (indígenas), das misturas de culturas e tudo o mais. Contudo, a cada um que de uma forma ou de outra fez parte desta “descoberta“ fica uma certa gratidão, especialmente aos que a registraram em tempos tão longínquos, mas também nos dias atuais fica a gratidão por existirem pessoas interessadas em expor tais registros ao conhecimento do povo, ainda que muitos jamais lhe tocarão os olhos, já terá sido válida por aqueles que lhe tocaram.
Sobre a pouca ou falta de informação, quero expor da consciência que tive da minha pequenez, tamanha foi a minha tristeza por me enxergar tão desinformada sobre nossa pátria amada, pois tantas vezes declaramos amá-la e nem ao menos a conhecemos como deveríamos. Com certo constrangimento pude ver que homens e mulheres cursando nível superior desconheciam muitas das informações que nos foram apresentadas durante a visita. Por não tê-las visto antes com inteireza ou integridade ou talvez por não as tê-las fixadas em suas mentes. Creio que como infelizmente ainda hoje acontece no terceiro grau, também ocorria outrora no segundo, no primeiro e no ensino básico, ou seja, uma educação muito básica e deficiente, onde poucos privilegiados tiveram acesso a ótimas e seletas escolas, em sua maioria, particulares.
É importante reconhecer que sempre existiram bons mestres, verdadeiros educadores, porém o tempo, o lugar e os recursos necessários quase nunca existiram; especialmente nas escolas públicas e o ensino sempre esteve longe do considerado ideal. E ainda é bem verdade que os fatores que prejudicam o aprendizado dos brasileiros é tão amplo que se fossemos relatá-los e comentá-los aqui, talvez fugíssemos muito do assunto em questão. Onde a questão principal é que alunos dos mais diversos níveis de ensino, seguem em frente sem terem adquirido um bom conteúdo. E por falar em conteúdo, meu Deus, e a arte? A cultura no sentido do conhecimento das artes, referindo àquelas que não alcançam o grande público ou quem sabe àquelas que o grande público não as alcança... Não as alcança em muitos sentidos e um deles e o da compreensão do que querem nos dizer os seus autores. É de entristecer o fato de que não sabemos apreciá-la e chega a ser cômico, pois nos provoca risos ou ainda pior nos parece sem sentido e sem graça! Os artistas que nos desculpem por tamanha ignorância, mas o nosso país também não é devidamente preparado ou educado para reconhecer em tais objetos a motivação, o interesse e o entusiasmo que os mesmos pretendem alcançar. Atrevo-me a dizer as gentes do nosso país esta muito ocupada com a arte de sobreviver e até sei que muitos até sobrevivem da arte sim, mas muitas das vezes nem sabem o exato valor que possuem, apenas praticam a arte da sobreviver aos percalços da vida, do cotidiano, e quando lhes sobra um tempo que dificilmente vem acompanhado de um pouco de dinheiro, buscam a diversão e a arte mais alcançáveis, tais como: assistir televisão ou ouvir música. Ah! Que bom seria, se fossem os adeptos de uma boa leitura a maior parte da população e que os livros fossem mais acessíveis e ainda que o sono não fosse tão irresistível e dominador depois de um dia cheio de trabalho e preocupações.
Sobretudo, não seria justo deixar de relatar sobre a força, a coragem e o entusiasmo que o nosso povo tem para superar as dificuldades, ainda que na política, na economia, na saúde, na segurança, na educação e em outros aspectos as coisas não andem bem. Ainda assim, continuar rompendo, resistente e alegre, ainda que não totalmente contente, porém, sem perder a fé e a esperança em dias melhores! Tem-se o orgulho de ser brasileiro e isso é bom...
Que bom é poder ver o relatório/desabafo que eu escrevi já há cinco anos atrás viajando por aí...
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